27.3.10

temporada

Escancarou a porta com um pontapé. Escolheu a cadeira de espaldar alto. Essa, de preço alto. Bradou e exigiu uma taça linda. Limpa, cheia do bom. Bebeu a goles grandes, boca larga, olhos vorazes. Babou um bocado no chão. Encheu a casa de si, chegou pra ficar. (não temos mais quartos) A janela trincou, o casebre é um sobrado.

Essa mala tem muitos carimbos datados. Um canto de jazz com pigarro. O que tinha-dava-levava. O dobro ou nada. Uma trinca no chão escondida com o pé apontou para a porta da frente sempre aberta. A maçaneta da lavanderia estava gasta. O ar estranho fez o gato enjoado do conta-gotas de leite arranhar a telha. Lá de cima, seu miado rouco conta cada hora gasta. Observa de longe as andanças, coça o bigode. Enrolado em seu rabo, não escapa do fog.

A goteira fez uma poça no babado. Uma mariposa passa pela trinca. Pousa no doce. Um recado antigo na geladeira diz da vida enquadrada.

Trovão. Esse alarme soando do nada.

Ele levou o espanador. Sinto muito, mas pelo menos o lençol precisa ser trocado.

Agora temos vagas, alguém vai querer chegar?

4 comentários:

L.J disse...

Engraçado como algumas pessoas chegam e se impõe mudam a vida antes enquadrada, formatada. Fiquei encantada com o seu blog, a começar pelo nome que você escolheu, muito chamou a minha atenção. Cliquei no link e encontrei um texto maravilhoso como esse. Parabéns, você escreve muito bem.

Adorei.

Marianna Portela disse...

"Lá de cima, seu miado rouco conta cada hora gasta."

adorei cada trechinho, cada parte de poesia bem colocada no texto. lindo!

Joana Masen disse...

Adorei o texto, curto e cheio de significados, como os bons textos devem ser. Estou seguindo seu blog. Bjos!

Daniel Bonavita Miceli disse...

Miii adorei esse texto!!! to vendo que vc não aparece por aqui há um tempo!!!! Volta a escrever minha linda!!! Vc faz isso muito bem!!!!!!!! bjs