1.4.08


Se vc me contar uma mentira, eu te digo a verdade.
E se vc gaguejar e coçar o nariz, eu vou saber que cê tá falando mentira, tá inventando, tá forçando a barra.
Eu não sei quando foi que cê esqueceu que eu já estive com vc assim, nariz a nariz. Eu já te vi tirar o óculos devagar e esfregar os olhos e li na sua testa o cansaço de escutar tantas vozes. lembra? , eu encostei em vc e cê me afastou com a mão espalmada e me disse que tudo na minha vida ia ser bom, mto bom, bote fé.
Ladainha: todo dia de manhã vc apertava os olhos mto forte e fazia barulhos incompreensíveis e manha pra não sair da cama. Me puxava e “não quero ir, nãoo...”
Já vi vc tentar esconder o choro de saudade antecipada e passei a mão na sua cabeça igual criança:“ei, vai dar tudo certo...” Sua boca tremia sem saber o que dizer e o olhar buscava fracassado saber o que esperava a gente depois do portão.
E o que esperou nós dois esperou cada um separado. Em portões diferentes, em aviões diferentes, em vilarejos diferentes, tudo diferente. Inclusive as horas, os momentos, os batimentos.
As esperanças, então... as esperanças em vão... as esperanças de não ter não... No meu avesso elas viraram do avesso. E um avesso sem forro, todo alivanhado. Foram mães inférteis, últimas de uma geração invejável.
Ficou tudo diverso, distinto do saber de cor cada oscilação da sua voz rouca.
Oscila minha voz pouca:
se vc me contar uma mentira, eu te digo a verdade.

ainda.




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