18.11.07

eu? brasileira?!


O brasileiro talvez seja aquele que não sabe dizer-se ou que tem tanto pra dizer que finda por fazer um samba-rock do crioulo doido num bate-o-pé, ô pá.

Talvez seja aquele índio nu que entregou ao português vestido de podre veludo de intenções o pau-brasil precioso e as virgens não-inocentes Iracemas mais preciosas ainda.

Ou aquele outro canibal que comeu a covardia lusitana, com um tempero de alemães e um caldinho de franceses.

Talvez seja a negra africana que trabalhou a terra e plantou aqui semente de mestiçagem, fazendo macumba, cozinhando pra sinhá, deitando com o senhor, jogando capoeira e cantando língua enfeitiçada.

Talvez seja o padre que colocou Deus nos olhos indígenas e não viu que Tupã era grande demais para caber na língua portuguesa.

Talvez seja o poeta que fez fricção e, com o suor do outro misturado ao seu, engole Hamlet e arrota tupy com cheiro de Shakespeare.

Talvez seja aquele artista engajado que foi mandado pra longe, mas que seu grito de revolução ainda ecoa, ainda ecoa nas palmeiras onde canta o sabiá.

Talvez seja o mestiço que não sabe se cai pro lado do branco ou se vai pro lado do negro, ou se sua cor é uma beleza de emblema do país colorido sem-cara, sem-cor, cara-de-pau-brasil-ausente.

Talvez seja o nordestino batalhador vagando com mais três cabeças-vazias-de-gente, incorporando a seca na sua pele, na alma e na experessão, aprendendo com cachorra que grunhido é palavra de deserto.

Talvez seja o homem violento que com cordialidade oferece um jeitinho e cobra austero um favorzão em troca.

Talvez seja o caipira dando nó em rabo de porco e cabeça de patrão e confundido seu lugar na civilização.

Talvez seja o negro cantor de sapato branco na lama, cantando um samba-choro pra ganhar tostão e beijo de mulata cadeiruda.

Talvez seja a mulher prenha de tanta poesia a ser dita, de tanta definição a ser buscada, de tanta rima a ser cantada pra melhorar a vida severina.

O brasileiro é uma baita contradição: com tanta extensão de terra não tem fronteira, não tem limite, é permeável e só insiste em dialogar com a flexibilização.

E não tem mal, não tem nada mal, meu irmão, se no fim tudo acaba em bacalhau e pizza, numa baita contraversão. E haja espírito de diversão, pois o brasileiro dança na contra-mão, mas ele sabe, ah, ele sabe: no fim tudo vai dar certo, e eu ainda danço um gostoso samba-canção.


(desculpe-me o tom desse blog, mas essa inquietude da essência brasileira me motiva a contar, a cantar! sou canarinho!! )



3 comentários:

Lucas disse...

There is no need to be sorry, it's my fault, my blog relates my impressions about my stay in your country and I try keeping posting so that in a few years, i'll be able to remember how great the time I lived in Brasil was. Because my loyalest readers are my family and friends, I naturally wrote it in french. And no, it's already hard to keep my blog up to date so I haven't started another one yet, even though I'd love to write much more. Perhaps I could traduce mine in portuguese?
I rediscovered your blogs today and was once more impressed with the quality and the variety of your writing, não seria literatura o que você ensina? Embora minha cultura e compreensão literárias sejam muito limitadas (estudo engenharia de computação), encanto-me com estilos como o seu, leves, não pretensiosos (pelo menos do ponto de lista do leitor) e no entanto altamente ricos.
Boa continuação.
PS- Prefere inglês?
PS2- Já que é aqui no PS que se pode escapar á consistencia do corpo principal da mensagem, aproveito para abusar da sua bondade: se você tiver algum autor ou obra para me aconselhar, seria-lhe muito agradecido.

Ricardo Siqueira disse...

"engole Hamlet e arrota tupy com cheiro de Shakespeare."

Adorei isso!


Sobre o texto, meu ultimo post diz bem o q eu penso sobre. Principalmente sobre você e seus semelhantes ;)

Daniel Bonavita Miceli disse...

MI!!!
Não há outra como vc hein?
Se as vezes me impressiono com a empatia que tenho com uma pessoa, fico a imaginar como é viver a visão de várias!!!
Vc foi todos os personagens!!!
Viajou em um mundo desconhecido de prazer dor e revolta e ainda assim fez as palavras soarem mais belas que romeu ao se declarar para Julieta!!!
Minha pequena grande avassaladora!
Amo-te por existir e Amo-te ainda mais por me deixar te conhecer!!!!
Bjos!!!!!!!!