30.10.07


Palavra tem âncora.
Finca, finca na gente, fica. Fica assim, com ardor.
Arde feitinho mertiolate e traz trauma de criança.
Chama a gente de covarde na cara, é choro.
Palavra tem filho.
Onde cai, brota. Brota em uma, duas, em seis, em 69.
Brota em multidão e gera rebuliço.
É chegada da interpretação. E o filho da palavra tem filho que tem gêmeos que tem prole de coelho.
Palavra tem quilo.
Pesa que é uma beleza.
Deixa leve que é uma desgraça.
Sabe voar e mergulhar sem ar. Tropeça e faz buraco de meteoro.
Dá cambalhota.
Palavra tem perna.
Pula da cabeça pro peito e do peito pra pélvis.
Escorrega e sapateia no ouvido. Cansa e senta no coração.
Dança e perde o compasso e começa de novo.
Chega no miudinho de ferradura.
Palavra tem grito.
Faz alarde e berra no megafone.
Bate feito sino, canta bonito. E chama gente, e afasta povo do povo.
Conta a história da história, põe pra ninar e ainda geme durante o sonho.
É reclamona.
Palavra tem chave.
Abre porta, fronteira e baú. Liberta do campo de concentração.
Põe no cárcere, esquece trancafiado o refém.
Escancara abertura e taca no mundo sem dó.
Rompe o hímen num contrato sexual.
Palavra tem interrogação.
Diz e desdiz sem dizer pra que veio. Afirma e nega em tom-sobre-tom.
Deixa sem rumo, mostra estrada, joga pra cima, vira pra baixo.
Se excita, se perde, se acha.
Quem não pode com palavra, fica amuado.
Desajeitado, avexado, acabrunhado. Não nomeia, não comunica.
Não canta e nem desafina, não estressa e não goza.
Pessoa sem palavra não parla very gut.
Fica só com sentimento sem sentido, a coisa de não saber o que é a coisa, o dito pelo não dito.
Perde o significado de significar.
Fica assim: prolixo pró-lixo.
Palavra é mundo, mas é coisa de Deus não.
Porque em sete dias, palavra não teve palavra
Teve a gente pra palavrear.

6 comentários:

Cristiano disse...

se o que nos consome fosse apenas fome...

palavra queima consome convida os amigos a leituras alheias.


P.S.: colocando novamente no ar novos textos no blog calmaria e furia.

Pra que? N�o sei. Mas vamos l� n�?

LABIRINTO-ASTERION

est�s convidada.

Luiz Coelho disse...

prole de coelho? palavra esperta!

Tchellonious disse...

As palavras têm mais calibre, sobretudo com cuba libre,
aliás, o comunismo só é real
no espaço virtual.

Agradeço pelo comentário no meu blog e, sobretudo, por conhecer sua obra.

Livia Torres disse...

Milene, sou a Livia, amiga do trab do Daniel. Parabéns pelo seu texto, queria adicionar seu blog no meu, ok? Depois dá uma passada lá, comecei a fazer tem pouco tempo, mas estou adorando! lptorres.blogspot

bjs
Livia

aarquiteta disse...

Adorei... realmente palavra é tão material quanto qualquer outra coisa.
A malagueta é tão forte que não sobra nada para agente comentar...rsss
Bjusss lindona

Rique Meirelles disse...

Palavra é vida.
Texto perfeito...


Beijos