13.9.07

Amor


Formigas correndo no braço direito, centopéias no esquerdo. Dormência. Abre os olhos, pisca-pisca pisca-alerta, olha o relógio, dez e meia, que-merda-que-eu-já-acordei. Ressaca é assim mesmo, Una passou a noite inteira embalsamada: mesma posição na cama, barriga pro teto, perna no melhor estilo “O Louco – Carta de Tarô”. Por isso essa meleca de dormência ou vou ter um infarte já já. Aprendeu com Aida, sua mãe, a ser hiperhipocondríaca.

Escuta alguém cantando sem ritmo que dói “tinha cá pra mim que agora sim eu vivia enfim o grande amor, mentira...”. Só tem um lugar da casa que o som reverbera desgraçadamente assim: a cozinha. Vira a bunda pro relógio, não tô nem aí pra vc, estou te dando as costas e só elas, olha lá... Pisca-pisca, coça o olho, espreme as pálpebras mas o sono evaporou como o álcool da noite passada. Não tem jeito, agora é hora da verdade: são só elas 4: Una, a ressaca e o par de chinelas de cetim pink (sobre a alma drag queen de Una falarei em outra ocasião, favor não insistir).

Rosas brilhantes no pé às onze e pouca da matina, cozinha aqui vou eu devagar, de-v-a- - g- a-- r, porque o santo é de esponja. Aida está sentada, terminando de almoçar e fazendo sua homenagem sonora a Chico enquanto descasca uma laranja lima. Una vem concentrada, muito concentrada tipo suco de caju, tenta fazer um andar elegante como nunca fez em sua vida (nem quando seu pai cismava de inscrevê-la nos concursos de Miss-whatever de Muita Pinga, o que aliás era uma vergonha pra qualquer criança que tivesse o mínimo de infantilidade e apego às suas Barbies...). Ela dá uma cambaleada, disfarça, encosta na janela, mas o dia tá lindo, não tá, mãe? Aida continua no duelo faca cega e laranja lima, momento muito dela.

Una alcança a cadeira depois desse um quilômetro sofrido de passarela. Quando ela levanta as chinelas pra colocar os pés na ponta da cadeira e o queixo no joelho, percebe um bicho passeando sorrateiramente pela mesa. Tensão: olha pra Aida, de laranja até o pescoço. Desde que o mundo é imundo e Una é crente que é gente, Aida detesta, tem verdadeiro p-a-v-o-r a insetos, o rótulo de Baygon é o livro de cabeceira dela. É inseticida e chinelo, ela não perdoa e ainda dá um grito de nojo e horror misturado com prazer por hora dos insetocídios frequentes. Una tem clara no rosto amassado aquela expressão de “o que está acontecendo, mãe (sem artigo nem possessivo mesmo, coisa do dialeto de Muita Pinga) só pode não ter visto, senão esse bicho já tinha virado esterco...”. Não tô sacando, não to entendendo, nunca mais bebo ontem...

Epaaa, eeeeepaaarreeei, baixa um espírito são-franciscano-de-assis e Una caça onde esconder o bicho. Ela está acreditando com fé que pra Aida só existe a laranja nesse momento. Enquanto isso, aproveita pra decifrar o bicho, colorido, pequeno, um fusquinha ligeirinho entre o vermelho e branco dos azulejos da mesa, antenas e...

“Una, é uma joaninha.”

Una vai fazer a cena-discurso Coitada da Minoria Joanesca nesse mundão de Seu Deus, pra ver se livra a cara e o corpo-fusca-de-pijama da pobre. Tô vendo, mãe, pô, lindinha, tem tanto tempo que não vejo uma, tão pintada, mas como é que...

Aida do alto de sua clareza e algo a mais, muito a mais:
“... vc demorou a acordar... já notei esse bicho faz tempo... deixei ela aí pra você ver...”

Una boquiabesta aprecia as cascas de laranja cortadas com esmero em quadradinhos. A joaninha sobe no dedo de Una.

Vivia enfim o grande amor. Verdade.

5 comentários:

Anônimo disse...

Amei a homenagem!... Afinal, EU SOU UMA JOANINHA!!!...
Huhauhuahuhauhuahaa!!
BeiJU

Ricardo Siqueira disse...

Delicia o texto!

Mas isso no final é uma "subliminar descarada" ou só falha de formatação do blogger?

Anônimo disse...

Autobiográfica ou confessional?!

NÃO IMPORTA!

HÁ TANTAS OUTRAS COISAS BOAS DE SE LER NESSAS CRÔNICAS QUE ISSO PASSA DESAPERCEBIDO!

Entretanto, é interessante ver o mundo, gordo, passando pelas lentes exageradas de Una!

=/

CJ disse...

pois é... incrivelmente a realidade é múltipla, relativa, nunca uma só. talvez por isso haja tanta discussão e desentendimento nesse mundo: cada um vive num diferente. com a fome dos ricos e a sede dos pobres, eu quis perguntar o que salta mais aos olhos... se é a ganância, o excesso, ou a necessidade... e pensar nas tempestades é pensar numa coisa que sobra num lugar e falta em outro: a água. vários mundos... mundo doido... fragmentos que juntos formam um só. um pedra? talvez!

beijos!

Ricardo Siqueira disse...

parou?