5.8.07

Às favas com a moda

Final de semana chegando, todo mundo com seus planos e expectativas de uma vida em dois dias e meio e Una com UMA cobrança.

“...minha filha, você vem esse fim de semana?” Impossível descrever a chantagem implícita, porque a pontuação da língua portuguesa é limitada por demais, dada a vastidão de emoções. Mas creia, isso soava pra Una como: “eu estou prestes a te deserdar, sua desalmada.” Tudo bem, mamãe, eu vou. (Explicação necessária - coisa bem tipo Niemeyer- : “mamãe” pra Una nunca foi demonstração de carinho, pelo contrário, ela só fala assim quando a garganta e o peito coçam, é aquela ironia que brota naturalmente quando somos colocados contra a parede.)

Mas tudo seriam dálias com orvalho se o assunto parasse por aí. Aida, mãe de Una, já estava com a peixeira em punho e ela nem tinha percebido. Um telefonema, umas lamentações a mais, uns queixumes aqui, umas espetadinhas dali, e pronto: Una já tinha sido golpeada e agora também já tinha puxado seu canivete. Revidou e nem viu ou ouviu, mas sua mãe sentiu - quem bate só sente a mão arder, mas quem apanha sente o corpo e alma queimarem.

“olhe, e depois de mais essa, você que trate de subir o morro a pé, porque eu não vou te buscar ...” Golpe baixo, pois caracol era pouco, Una ia igual a uma tartaruga pra sua cidade natal, e por conta da discussão-esgrima-de-loucas agora ela ia ter que esquentar as canelas e subir o ladeirão até sua casa. Perdeu, playboy.

Tudo bem, MAMÃE, tudo bem (e ponto de ironia, aquele que falta na nossa língua, segundo Ubaldo.)

Já no ônibus pra Muita Pinga (cidade mais amarelada e amarga, eita), teve idéia iluminada; quer saber, vou descer na rodoviária e pegar um táxi, uma banana pro ladeirão, ó. Pensamento de gordo mais que tranqüilizador.

Chegando perto do ponto mais próximo da sua casa, quatro paradas antes da rodoviária, Una já tinha um sorrisinho nos lábios. Mas o ônibus pára. Ninguém vai saltar, parou por que, por que parou essa joça??

A porta abre e ela escuta uma voz looonge, longe, falando com o motorista e parece que falam seu nome. São essas vozes internas, só pode ser, I hear weird dead people, vou ao centro amanhã falar com o mentor, isso não tá legal.

E aí vem aquele aroma ambiente de bosta, alguma merda está pra acontecer... De repente, os passageiros se viram e começam “...ninguém vai saltar, ah, vai? mas cadê essa menina que vai saltar? Cadê? como é o nome, hein? aah, é Una? Una?! Unaaa... quem é essa desgraçada dessa Una que não desce??? Ti, ti, ti, pá, pá, pá, porraa, desce logo...”. 45 vozes presentes e muito, e o saco de papel com restos mortais de bala já continha também um terço da cara roxa da procurada.

Una se levanta e vai ver quem foi que invadiu o ônibus à sua procura. Esse serviço de espionagem de Muita Pinga deve ter aprimorado, só pode ser. E aí, faz-se miragem nesse deserto barulhento: Aida tinha parado o ônibus e estava ali, bem ali, muito ali pro gosto de Una, de pijama. Sim, não foi nenhuma bala estragada nem as curvas da serra de Muita Pinga, Una estava vendo sua mãe de pijama no ônibus.

“...resolvi vir te buscar...” Aida realmente estava descobrindo novas formas ninjas de usar sua peixeira.

Desce Una surpresa execrada tartaruga humilhada com 45 risos a olhando pela janela do inferno móvel.

Reina o silêncio cortante, o grito calado, a humilhação engolida e o nó na garganta de Una até em casa, desnecessário dizer. È minha mãe, é minha mãe esse ser de pijama, é minha mãe???!!! Aaaahh!

Já não agüentando mais, Una tem que canivetar, há que se evitar o câncer.

Pô, mamãe, me buscar de surpresa vestindo pijama já é uó, mas tinha que ser o meu de ursinhos palhaços???

Definitivamente, essa possessividade ainda vai possuir Una.

16 comentários:

Brubs disse...

Ola
Muito bom, Claro que todos ja travamos duelos de esgrima como disse, e por sinal muito bem figurado.

Seu texto é exelente, virei fã

aarquiteta disse...

Una... ops Mi, eu já tinha rido até morrer desta historia (com H porque é real)anos atras na faculdade, alias, quando comecei a ler já lembrei dela na hora...mas reler com os requintes mais sofisticados da lingua e do seu talento foi demais pra mim... adorei!! Ri com lagrimas nos olhos, pode crer...
Este blog está demais.. espero nao ter contato nenhum segredo :)
Beijao

Anônimo disse...

É Milene esta historia é sua!!!! VEm com esta não!!!! Abraço Ramon

DEA disse...

Oie, ao ler essa história lembrei de já ter ouvido algo semelhante, mas com outras personagens!!!!rsrs
Maravilhoso o texto!!!!

Bjinhoss

Sweet Pimenta | Milene Portela disse...

Conclusão: eu não tenho amigo, só testemunha delatora. Tô danada.
;)

Anônimo disse...

A D O R E I !

criativo, inteligente e divertido!

sua cara, como sempre :)

bjos.. Vivi

Enzo disse...

Milene, não sabia que você era poeta..heeheh.. seus textos são muito bonitinhos e filosóficos. Gostei! ;)

bjos

Sweet Pimenta | Milene Portela disse...

bonitinhos e filosóficos??

esse enzo é mesmo um pândego.
=P

Luiz Coelho disse...

A epopéia tragicômica de Una ganha contornos maiores, duas novas personagens de relevância inestimável: Aida e Muita Pinga (conhecida por alguns como Margarina Portuguesa, Masculina Paraíba [mudei a ordem por influências do inglês], Monstruosidade Permanente, Monty Python etc.)

A exemplo de qualquer saga...

Luiz Coelho disse...

outra coisa, você já conseguiu ouvir a rádio?

buia disse...

Mi,
Assim eu só desanimo de ir a Miguel (n sei pq, mas minha memoria é pessima o suficiente p me deixar lembrar o nome ficcticio) né!?
vc é uma figura mesmo... Ainda bem q eu pretendo chegar de carona c a Ju ou c o Flavio, n vou correr risco algum no "inferno móvel"...
huahuahuahua

Adorei o texto!!!
Bjo gigante

Marcelo disse...

Novamente passando por aqui...

Parece que tudo de ruim
acontece com a Una... rs

parabéns pelo texto e pelo talento!

Cadinho RoCo disse...

Desfecho maravilhoso, sóbrio, sedutor, encantador. Pagavria caro para estar no tal ônibus, ver o pijama...
Cadinho RoCo

niki gata disse...

BIGGEST CAT,

tah mt buniiiito isso aqui!!! adorei td!!! alias uma vez tava num hotel,uns aninhos isso..e na madruga minha mae apareceu de pijama td descabelada perguntando se eu nao ia dormir..eu lah com meus coleguinhas..umpf!!eh mole!! que cuuuu
=)

e o primeiro texto me identifiquei tb, mas isso sao outros 500!!!

Saudade eternaaaaaaa !! To na fase nosltalgia-depressiva-traumatica-saratosense. cu de novo!!!


kiss niki

Sweet Pimenta | Milene Portela disse...

depois do drama de niki, Una se sentiu, no mínimo, menos solitária em sua dor. =P

Ricardo Portela disse...

Quero poder não pensar que parte dessa história foi realmente baseada em fatos verídicos...