31.8.07

Nem tão rapidinha na rodoviária (II)


“...segue o seco sem sacar que o caminho é seco, sem sacar que o espinho é seco, sem sacar que seco é o Ser Sol...”
Marisa Monte nas orelhinhas plugadas no Lôro, o mp3 player companheiro de viagem preferido de Una. Rodoviária, é, rodoviária mais uma vez, mais uma sofrida vez.

“...passe um tempo, passe lá, passo mal com meus lençóis...”
E passa velhinha pendurada em bolsa florida, passa patricinha o-quê-que-eu-tô-fazendo-nesse-lugar-podre, passa emo sacudindo franja, passa pai assustado com criança com cara de me-caguei-inteira, vem velhinho arrastando caixa preta sobre rodinhas, vai peituda cadeiruda com silicones batendo palmas, passa negona tec-tec de tamanco transparente, anda barbudo “lendo” playboy, tromba com a pilastra careca distraído por Saramago, tropeça menino com boca cheia de pão de queijo murcho, corre moça franzina e sacolas da Americanas ao vento, passa elefante azul languidamente, vem um... Elefante azul??

“...os punhos e os pulsos cortados e o resto do meu corpo inteiro... há flores em tudo que eu vejo...”
Una não passa, estagna. Está com sua anca branca desbotada acomodada num banco ordinário e vê elefante azul ir. Pisca, sacode a cabeça, esfrega os olhos. Elefante azul volta, preguiçosamente. Coisa linda, azul com raios brancos em volta. Tô louca, só pode ser, quem é que verifica os níveis de CO2 nessa pocilga?? Elefante azul estaciona, planta bunda. Não consigo parar de olhar, será que aquele croissant que eu comi tava estragado? Elefante azul passa, tá encarando Una. Situação!!

“...eu era tão feliz, e não sabia amor, fiz tudo que eu quis, confesso a minha dor,e era tão real, eu só fazia fantasia e não fazia mal...”
Cadê a câmera pra registrar isso? Se a mãe de Una e os amigos já andam querendo interná-la, imagina depois desse relato, Ninguém vai acreditar em mim, um elefante azul na Novo Rio, e em cima dele devia estar Sidarta Gautama, né, Una ?? O jeito é: procura, procura, vasculha, vasculha bolsa, barrinha, manteiga de cacau, óculos, modess, quanta tralha!, piranha, camisinhas, tylenol, ai!, bagunça, que bagunça!, trena, halls de melancia, revista, merda!, pilhas, chocolate, que bolsa gigante! isso é um poço, daqui a pouco acho a Samara!, perfume, postan, espelho-escova, gnomo, duende, fone, lei de murphy, irritação, caceta!, moedinhas, papel de bala, lixa, Nossa Senhora de Fátima, celular, cuuu!, caneta, caderninho rosa, yeaaah! Achei!


“.. um dia eu vou estar à toa, e você vai estar na mira, eu sei que você sabe, que eu sei que você sabe, que é difícil de dizer...”
Una está numa fase séria, definitivamente, e esse elefante azul sarcástico da porra vem pra bagunçar. E vem também pra soprar uma inspiração. Mais uma vez o caderninho rosa, e uma Jane Austen falida moribunda fajuta sussurra no ouvido de Una:


“Instead of eyes, she has got blinking hazle marbles made of bright beliefs.

Instead of a voice, she was given tiny hands, lots of sheets of delicate paper, a soft gray pencil and hard times to sweat above.

Instead of a mind, she has got a flower field, where no seeds are needed and no thorn grows, a perfumed wind blows softly over the sunny side, an unidentified moon shines high over the dark half.

Instead of paces, she has got light abrupt moves: her temper is ill and controls her feelings, rhythm and the paths she chooses to walk on.

Instead of a heart, she was given a kid’s toy: fragile, funny, dancing to every single note it listens to; there’s no rest, there’s no calm future for such an improper material.

Instead of saying yes or no, she’s now singing loudly her own strange special melodies, louder than anyone is willing to listen to.

She has got no time.
She has got no chance.
She has got no faith.

Instead, she has got the gift of writing.

She has got life, a rare life.

A damn way too capricious one.”

“tradução feita por Melt, amiga de Una (metida a tradutora):
Em vez de olhos, ela possui piscantes bolas de gude castanhas feitas de crenças brilhantes.
Em vez de uma voz, foram dadas a ela mãos pequenas, um monte de folhas de papel delicado, um lápis cinza macio e momentos difíceis pra se suar em cima.
Em vez de uma mente, ela possui um campo de flores, onde não precisa-se de sementes e espinhos não crescem, um vento perfumado sopra suavemente no lado ensolarado, uma lua não-identificada brilha alta no lado escuro.
Em vez de passos, ela possui leves movimentos abruptos: seu temperamento está doente e controla seus sentimentos, ritmo e os caminhos que ela escolhe caminhar sobre.
Em vez de um coração, foi dado a ela um brinquedo de criança: frágil, engraçado, dançando a cada nota que escuta: não há descanso, não há futuro tranqüilo para um material tão inadequado.
Em vez de dizer sim ou não, ela está agora cantando alto suas próprias melodias estranhas e especiais, mais alto do que qualquer um está disposto a ouvir.
Ela não tem tempo.
Ela não tem sorte.
Ela não tem fé.

Em vez, ela tem o dom de escrever.

Ela tem vida, uma vida rara.

Uma desgraçada vida por demais caprichosa.”


“…se ela me deixou a dor é minha só, não é de mais ninguém, aos outros eu devolvo a dor, eu tenho a minha dor...”
Elefante vai, sobe no ônibus. Junto com o menino que o carrega na perna, na tatoo azul do joelho ao tornozelo. Menino belo, cachos, muitos cachos que fazem Una sorrir mais do que para o elefante. O menino príncipe indiano dono do elefante tem olhar plácido e atravessa tudo, e nem repara em Una babando em sua perna e querendo que sua vida fosse colorida assim, com raios brancos em volta. Ela fala com seus all stars. Não mostro pra ninguém esse texto e nem falo de elefante azul, aquele croissant tinha algo do capeta, agora fico aqui, balzacona tarada olhando tatuagem em cópia de Los Hermanos...

Caderno fechado. Ela vê cachos passarem numa janela veloz com destino ao Nunca Mais Te Vejo. Os cachos encontram a cabeleira vermelha ondulada de Una e balançam. Há mesmo que se crer em flores de lótus que brotam da lama, ela curva-se em reverência. Foi um desejo, só um desejo e uma miragem, ela sabe que a origem da dor é o desejo e o afeto, mas ela está feliz com seu dia de Buddha...

“... só não se perca ao entrar no meu infinito particular, em alguns instantes, sou pequenina e também gigante...”

Marisa, Namastê.
Namastê, everybody.



post scriptum: que Una não nos leia nem escute, mas ela deu sopa com o caderninho rosa.

4 comentários:

Luiz Coelho disse...

Caetano Veloso - Rocks
Caetano Veloso
tatuou um ganesh na coxa
chegou com a boca roxa de botox
exigindo rocks
animais
metais
totais
letais
eu não dei letra
tu é gênia, gata, etc.
mas cê foi mesmo rata demais
meu grito inimigo é:
você foi mor rata comigo
você foi concreta e simplesmente
rata comigo demais,
rata comigo demais
rata


Foi instantâneo, sua crônica me lembrou esta canção genial and genial and genial, do Caetano. Conhece?!

Psicodélico! Incrível o qto eu me identifiquei, vc sabia que vou tatuar Ganesh nas costas ou no braço (estou em dúvida por isso não fiz), identifco-me mto com Ganesh!

Tem certeza que Una não comeu nenhum cogumelo azul antes de escrever isso?!

Pedro Carné disse...

Estou a preparar um novo formato para o blog, e terminando de escrever novos poemas... Em breve terás grandes motivos para frequentar assiduamente! Beijos!

iva disse...

Quero viajar com a UNA!!! A rodox Novo Rio naum eh a mesma quando ela está aguardando o bus para Muita Pinga!!!

aarquiteta disse...

Bom saber que carrega ainda vestigios da Una Architect... trena na bolsa??? Viajar com esta menina de cabelos vermelhos ao vento é mais que uma aventura... adoro estes seus textos!!
Bjokas