20.10.16


saber ser Sol. saber o momento de ser. saber-se. olhar o céu que circunda. espalhar abraços ensolarados, cultivar momentos mornos. prestar atenção nas nuvens: perceber qual passa, qual persiste. recusar senões nublados. ensolarar angústias e esquentar a agonia dos dias pretos. esconder-se dos trovões. onde eles estão, não estar. guardar sua costa, proteger sua atmosfera. ampliar-se. alargar-se. queimar-se para clarear o alheio. arder em vontades. aquecer começos.


saber ser Lua. saber a época de ser. saber-se. mudar o que pede mudança, iluminar o sombrio. permanecer por um pouco, por quanto der, por quanto for preciso. alterar sua forma. renovar-se. fazer-se inteira, deixar metades, aparar pedaços. aceitar um lado negro. não economizar no brilho. inspirar ideias, motivar transformações. mexer com as conexões femininas. instigar desejos.

saber ser rio. saber a hora de ser. saber-se. correr com força, nadar com vigor, gestar vida que gesta vida. proporcionar. acolher. mudar caminhos, criar caminhos, bloquear caminhos, escolher. derramar exageros de fantasias, transbordar felicidades infantis. não estagnar. não aceitar desvios de concreto duro, estar forte e ainda fluida. espalhar cabelos de correnteza, tornar-se redemoinho. agitar. parar. voltar. correr. fluir. aguar-se para curar.

saber ser vento. saber a oportunidade de ser. saber-se. soprar dúvidas, carregar sementes de oportunidades, disseminar afeto transformador. virar furacão raivoso, destruir sentimentos obscuros. correr por tudo. pairar sobre a calma. formar-se brisa para amenizar o que dói. germinar possibilidades. planar suave. não forçar passagens. moldar pedras, continuamente, lentamente. persistir. sussurar gentilezas. invisibilizar-se. 

saber ser terra. saber o tempo de ser. saber-se. estar sólida, firme. permitir inclusões, deslocar-se imperceptivelmente. alterar-se lentamente. brotar pequenezas. gerar frutos alegres. tremer para lembrar a força. observar o tempo. eclodir mágoas. explodir medos. liberar vapores de traumas. não guardar o que não pertence aqui. expulsar os lixos. não aceitar violências. desenhar fronteiras abertas. traçar campos largos. subir e descer em montanhas de desafios, abrir vales de acolhimento. admitir os precipícios. expor fendas. rasgar-se. ver-se plena, bonita, presente no agora.

saber ser eu. saber sempre ser. saber-se. conhecer-se em grandezas, tolerar pequenezas. dizer sim ao universo, dizer não ao inverso. dialogar com o que não se vê. perceber momentos. perceber-se. ver o que há dentro, olhar o que está à volta. ver-se. escolher. com sobriedade, com loucura. escolher-se. criar pontes de luz, imaginar além do olhar. criar-se. instaurar o belo, rejeitar o menos. ajoelhar-se quando preciso. não esmorecer. acreditar que ainda vai. ainda dá. ainda será. ainda há. ainda pode. acreditar ainda. 
saber. 
saber-se.

19.2.11

e ainda vou acabar caminhando por aquele lugar que vejo todos os dias nos sonhos. e com sonho atingido em lilás, serei passarinho branco com asas de satisfação espalhando sementes trazidas da estrada cinza antiga. mas as sementes serão renovadas pela chuva de melaço e brotarão arcos-íris pequenos cheirosos de riso. em cada arco-íris, um caldeirão de jujubas espera por uma criança afoita ou uma gente grande original. a brisa sopra pipocas multicoloridas, há uma névoa de guache. num galho em formato de lápis, uma gorduchinha balança as pernas, assobia canção de roda. um gato acrobata se embaralha em volta dela, cai no lago de purpurina e ri com os bigodes pro alto. lá na cachoeira alta, um burburinho feliz chama os vagalumes. o céu pontilhado de corações conhecidos mostra que o pensamento se fez vivo, que a vontade honesta escolheu o destino e o anjo da guarda tinha disfarce de intuição.


que pensar em tons delicados permaneça na nossa essência.

que nossas tintas não pesem, que sejam pigmentos pedindo licença para virar lembranças serenas.

que envelhecer nos dê rugas de colcha de retalhos no pensamento: apenas mais espaços confortáveis para dormir memórias.

18.1.11

fecho os olhos e lembro

em pouco tempo

entre barba e whiskies

o azul do meu peito

refletido

no seu pensamento

lento

tento tento

ler lábios molhados

em humor seco

guiando

all star branco

cabeça pra baixo,

não não

seu beijo perturba

me solta me pega me fala

de onde é o sotaque

pra onde vai a memória

sorriso pequeno

toque delicado

me diz seu sobrenome

quero quero

ver você por dentro

fecho os olhos e lembro

durante muito tempo,

12.9.10

desafio

Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se: "Agora"

( Haicai de Guilherme de Almeida )


Versões:

A taste of cacao
under the sun. Life
was called now.


A taste of life
under the light. Take
your bite!

*versões apresentadas no curso de Tradução e Versão Literária

27.3.10

temporada

Escancarou a porta com um pontapé. Escolheu a cadeira de espaldar alto. Essa, de preço alto. Bradou e exigiu uma taça linda. Limpa, cheia do bom. Bebeu a goles grandes, boca larga, olhos vorazes. Babou um bocado no chão. Encheu a casa de si, chegou pra ficar. (não temos mais quartos) A janela trincou, o casebre é um sobrado.

Essa mala tem muitos carimbos datados. Um canto de jazz com pigarro. O que tinha-dava-levava. O dobro ou nada. Uma trinca no chão escondida com o pé apontou para a porta da frente sempre aberta. A maçaneta da lavanderia estava gasta. O ar estranho fez o gato enjoado do conta-gotas de leite arranhar a telha. Lá de cima, seu miado rouco conta cada hora gasta. Observa de longe as andanças, coça o bigode. Enrolado em seu rabo, não escapa do fog.

A goteira fez uma poça no babado. Uma mariposa passa pela trinca. Pousa no doce. Um recado antigo na geladeira diz da vida enquadrada.

Trovão. Esse alarme soando do nada.

Ele levou o espanador. Sinto muito, mas pelo menos o lençol precisa ser trocado.

Agora temos vagas, alguém vai querer chegar?

7.2.10

se a noite fosse simples coisa de dois chopps, amigo e riso solto,

não haveria el gran finale de rivotril engolido com Norah.


8.6.09


_____________ to the most interesting woman I've ever met

penso nos ares de Roberta

pisando pesado sobre
ladrilhos pretos, brancos não_
torta vai pelo caminho_
but she does it her own way_
e ainda que não bastasse_
ser amendoada_
cria algo dourado
palpável intocável
diz a isso
come and save me
se recolhe em
uma ostra de remédios
com óculo virtual
mas mesmo assim
complexa peregrina
presa ao chão
vejo duas gotas de mel
no chá das cinco

mais uma Coca-Cola,
please

do not disturb her
she's being Roberta

and that takes a lot of time


26.5.09

cadeirante


deslizando sentada
pelo Galeão

tenho a exata sensação
do que é a mirada
(especial)
todos me olham
por inteira
mas eu
só vejo pernas

5.4.09

esquisito lembrar - só - agora de seus cantos (de unha) ruídos -

pegadas da dúvida tímida e da teimosia em negar ciúme -

agora – só – faz (sentido) pouco que descobri seus dedos

possessivos parando o vento por não serem únicos a marcar meus

fios com nós ruivos

arrepios,

14.3.09

Opa!!!

E então a vida é assim: inesperada, não é mesmo?
E o inesperado é delicioso! (ok, sometimes, sometimes...)
Recebi um convite inesperado, delicioso e irrecusável, deu nisso:

http://blogdesete.blogspot.com/2009/03/milene-portela.html


Com o convite, me senti criança quando ganha um pirulito colorido:
olhos cheios, coração alegre!
Que o resultado espalhe uns pirulitos por aí!



ps: Moacir, obrigada pela oportunidade e pelas palavras! =D

15.2.09

teus fiapos poucos
todos pro alto suados
acabam em cachos
pequenos dentes entre
assanhados espaços
soltam barulhos
engraçados canção
e dança disritmados
bailam olhos castanhos
alegres piscam cílios
invejados
beijo tuas bochechas
rosadas abraço
apertado gargalho
alto te jogo
boneca mimada

Maria Júlia me faz
uma dinda-palhaço.